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07/10/2004-08:10:06
Brazucas
 

Matt Griggs, diretor da Rip Curl, teve um frio na barriga quando encontrou a porta do quarto do hotel entreaberta. Lá dentro, tudo vazio, arrumado, limpo e pronto para o próximo hóspede. “O menino foi embora pra casa. Foi para o Brasil”, declarou a camareira. Raoni Monteiro , 22, e sua namorada grávida tinham se mandado. O diretor da Rip Curl mal podia acreditar. Eliminado do Billabong Pro Jeffrey's Bay, etapa sul-africana do WCT, a principal esperança do surf brasileiro tinha abandonado o barco.

Griggs foi ao quarto de Raoni para ver como ele estava após a derrota para o australiano Mick Lowe, no dia anterior, e para confirmar os detalhes de uma viagem promocional para Moçambique, na semana seguinte, como parte de uma campanha da Rip Curl, que patrocina o brasileiro. Dias antes, Raoni deixara claro que não queria viajar. Mas a Rip Curl também tinha deixado claro que a viagem não era opcional. Atitudes como a de Raoni refletem a confusa cultura de surf no Brasil. Se os surfistas brasileiros querem ser levados a sério pelo resto do mundo, têm um longo caminho pela frente.

Meu primeiro contato com o surf brasileiro foi em Florianópolis, em 1986, no primeiro evento da ASP (Associação de Surf Profissional) no país, o Hang Loose Pro. Dois anos depois, um brasileiro de 14 anos me chamou a atenção. O jovem goofy [que pisa na prancha com o pé direito à frente] era tão rápido e eficiente que eu me perguntava o que estaria por trás de tanta energia. Seu nome era Flávio Teco Padaratz . O garoto era quase um surfista fabricado, extremamente focado em se tornar profissional. Com um inglês quase impecável – certamente mais polido do que o de qualquer brasileiro antes dele – Flávio era o cara pelo qual o resto da turma seria conhecida e julgada no mundo do surf gringo.

Flying Flávio e Fabulous Fábio
Em sua primeira viagem à Austrália, levou sua sombra – um baixinho habilidoso e dono de um estilo fantástico chamado Fabinho Gouveia . A mídia especializada australiana batizou os dois de Flying Flávio e Fabulous Fábio. A mais influente dupla na história do surf brasileiro provou estar à altura das expectativas. Sem desgrudar nunca de Teco, Fábio Gouveia ficou conhecido pelos comentários espirituosos, sempre com um sorriso maroto nos lábios. Além de humorista, Fábio era a síntese do estilo fino de surfar, nunca antes visto em um brasileiro. Hoje, os dois embaixadores do surf brasileiro partem para outros desafios. Com idade avançada – ambos já passaram dos 30 –, eles se aposentaram do WCT [primeira divisão do surf mundial] no fim do ano passado.

Mas quem são os brasileiros que ainda estão no tour? Atualmente, são oito, ou nove se contarmos Eric Rebiére , que nasceu no Rio, mas vive em Biarritz, protegido por um passaporte francês e patrocinado pela marca francesa Kana Beach. Para um país tão jovem no surf como o Brasil, com 25 anos de vida no cenário mundial, ter oito surfistas na elite competitiva é uma grande façanha. Só que as coisas não vão tão bem quanto parecem. A maior parte desse time já defende as cores da bandeira verde-e-amarela há mais de oito anos. E a posição que ocupam hoje está cada vez mais ameaçada. Este ano, os oito estão mal das pernas. Pior: eles mesmos acreditam que suas carreiras estão chegando ao fim. Talvez esteja na hora de a nova geração de surfistas do Brasil entrar no palco mundial. Garotos como Adriano de Souza , 17 anos, sensação do surf aqui na Austrália. Quanto à velha geração, a maioria está por um fio. Vejamos caso a caso.
O Animal
Primeiro, Peterson Rosa , que é chamado de Animal. Para os gringos, Peterson representa a essência da cultura brasileira. Ele é considerado um símbolo da espécie, o animal do surf sul-americano. Aos 30 anos, é um veterano no WCT, mas terminou na 26ª posição no ano passado. De caráter forte, mas não tão durão quanto ele gosta de parecer, o Animal é um fanático pelo Brasil. Apesar de lançar sprays até as nuvens em suas manobras, dar um dos melhores floaters do tour, rasgar forte nos cutbacks, se jogar sem medo e competir com firmeza, sempre foi muito criticado por não dobrar os joelhos. Muitos, senão a maioria dos observadores, tratam esse estilo, ou a falta dele, com cinismo. Mas Peterson está vivendo um milagre. Vítima de um sério acidente de motocicleta alguns anos atrás, que resultou em uma grave lesão na parte posterior da coxa, teve de ser operado para que seus músculos e ligamentos fossem reconstruídos e, por pouco, não teve de abandonar o surf.
Os dois brasileiros mais velhos no circuito mundial completam 34 anos em novembro. Ambos são cariocas e goofies, mas as semelhanças param por aí. Guilherme Herdy e Victor Ribas fizeram muito pela imagem do surf brasileiro. Herdy é fisicamente sólido, surfa com muita pressão e tem um raro senso intuitivo para entubar. Ano passado, foi o brasileiro mais bem colocado, terminando como 21º no ranking do WCT. Ele é capaz de encarar ondas grandes e parece ter controle de suas emoções, embora não tenha vencido ainda nenhuma etapa do tour.

Em contraste com Guilherme – fisicamente, emocionalmente e no que diz respeito ao estilo – Victor Ribas é um baixinho de fala mansa que exibe um estilo fluido, parecido com o de Rob Machado. Tão tímido na água quanto em terra firme, foi publicamente criticado em 1997 por ter comemorado uma onda em Pipeline na qual ele não ficou nem perto do tubo. Mas Victor tem dropado cada vez mais próximo ao pico e hoje demonstra muita coragem em ondas grandes. Ele também era conhecido por sua incapacidade de controlar as emoções, um legado do envolvimento que teve, anos atrás, com Rômulo Fonseca, um técnico fanático e limitado. A mais memorável explosão de raiva foi em Maldivas, quando atirou pedras nos juízes após ser eliminado da competição. A seu favor, o fato de ser um dos poucos brasileiros que já faturaram uma etapa do WCT, o Gotcha Lacanau Pro, na França, em 1995. Além dele, o feito só foi conseguido por Fábio Gouveia (Biarritz/93), Ricardo Tatuí (Biarritz/94), Teco Padaratz (Hossegor/94), Peterson Rosa (Rio/98) e Neco Padaratz (Hossegor/2002).
Quantos anos a Austrália demorou para dominar o circuito mundial? Pois tente fazer isso com menos de um terço do dinheiro e ainda tendo que aturar os outros dizendo que falamos alto demais. Não é de hoje que as revistas gringas não valorizam a vitória de um brasileiro. Queria saber onde foram parar as matérias sobre as besteiras de Mark Occhilupo no Rio de Janeiro. Mark foi pego pela polícia com um baseado momentos antes da final, usando a lycra do evento. Não fossem alguns brasileiros, que passaram um papo no guarda, ele não disputaria a final. Vexame maior foi ele sair fugido da praia, sem subir ao pódio, e ter de deixar o país logo em seguida para não ser preso. Se fosse na Indonésia...

Onde estão as matérias que falam do Sunny Garcia metendo a mão na cara de um fotógrafo brasileiro depois de perder uma bateria para um surfista do Brasil? A ASP sempre encobriu o fato para não manchar a imagem do tour. Por que não mostramos as festas alucinadas dos australianos na Europa, que se entorpecem até tirar a roupa na frente de todo o mundo? Quanto à falta de profissionalismo de Raoni, só queria saber por que nunca falaram nada sobre Tom Curren, tricampeão mundial, que jogava fora seu passaporte para não ter que fazer viagens promocionais. Isso mostra que falta de profissionalismo não é exclusividade de brasileiro. Nós não temos a mídia ao nosso lado e não ganhamos rios de dinheiro. Por isso, temos que sair antes de o evento terminar, senão não teríamos grana para ir à próxima etapa.
Teco Padaratz


Por que ainda não tivemos um campeão mundial? Um dos principais motivos é que hoje 60% do WCT acontece em lugares com ondas especiais e caros para que os brasileiros passem temporadas treinando. Outro detalhe: participar do circuito mundial custa US$ 60 mil por ano. Quantos brasileiros conseguem essa grana sem patrocínio? Tem atleta americano que não está no WCT e ganha US$ 25 mil por mês. Com essa grana dá para passar quatro meses no Havaí. Acho que evoluímos bastante. Há 12 anos, tínhamos dois atletas no circuito, Teco e Fabinho. Hoje, são nove entre os 40 melhores.
Peterson Rosa

Minha esposa estava grávida de oito meses e começou a passar mal. Estava inclusive sentindo contrações. Fiquei preocupado porque estávamos longe de casa, em Jeffrey's Bay, e achei melhor voltarmos para o Brasil. Eu jamais a deixaria sozinha na África do Sul naquele estado.
Raoni Monteiro

Revista TRIP
 

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